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Ceratocone em adolescentes: sinais e cuidados que os pais precisam conhecer

8 min de leitura

Mudanças frequentes nos óculos e dificuldade para enxergar mesmo com a correção podem ser sinais de ceratocone na adolescência. A doença altera o formato da córnea, a camada transparente na frente do olho, e pode avançar mais depressa nessa idade. Você pode ajudar seu filho a contar o que sente e a participar dos cuidados, junto com o acompanhamento por exames complementares com seu médico oftalmologista.

Por que o ceratocone pode avançar mais rápido na adolescência?

Pessoas mais jovens têm maior risco de progressão rápida do ceratocone. Essa relação com a idade orienta o acompanhamento, mas não permite prever quanto a córnea de seu filho vai mudar.

Na doença, a córnea pode ficar mais fina e adquirir uma curvatura irregular, desenvolvendo um alto grau de astigmatismo e prejudicando a nitidez da visão. Os estudos de evolução mostram que a idade e as características da córnea no primeiro exame ajudam a avaliar o risco. Não há uma explicação única que determine o comportamento da doença em cada adolescente.

Ilustração de dois olhos em corte, lado a lado. À esquerda, rotulado "Normal", a córnea tem curvatura regular; à direita, rotulado "Keratoconus", a córnea se projeta para a frente em forma de cone.

À esquerda, um olho com a córnea de formato regular; à direita, um olho com ceratocone, em que a córnea fica mais fina e se projeta para a frente em forma de cone. Ilustração esquemática.

Também é possível encontrar alterações já avançadas quando o jovem recebe o diagnóstico. Por isso, avaliamos os exames da córnea mesmo que ele ainda consiga ler bem com os óculos. A família pode ajudar a manter essa avaliação ao longo dos anos, sem usar apenas a impressão de que a visão está boa para decidir sobre os retornos. Geralmente, orientamos a manter o acompanhamento médico a cada 6 meses.

Quais dificuldades seu filho pode perceber na escola e em casa?

Seu filho pode ter dificuldade para enxergar o quadro ou perceber letras com uma sombra ao lado, mesmo usando óculos. Essas queixas merecem investigação, sobretudo quando a receita muda frequentemente ou uma nova receita não oferece nitidez suficiente.

Menino de óculos escrevendo num caderno, sentado à mesa de casa com livros abertos.

Foto: Vitaly Gariev / Unsplash.

Em casa, pergunte o que está difícil de ver. Ele pode relatar luzes espalhadas à noite ou não conseguir ler uma legenda que antes enxergava. São maneiras de descrever alterações visuais, sem que ele precise conhecer termos médicos.

Na escola, vale conversar sobre a dificuldade para copiar o que está escrito à distância. Evite atribuir essa dificuldade à desatenção antes de ouvir o adolescente. Se necessário, compartilhe a queixa com os professores para conversar sobre ajustes nas atividades enquanto a visão é avaliada.

Anote quando o problema começou e leve as receitas anteriores. Os sintomas ajudam a investigação, mas não confirmam ceratocone por conta própria.

Os irmãos de um adolescente com ceratocone precisam ser examinados?

Os irmãos merecem avaliação da córnea porque ter um familiar de primeiro grau com ceratocone aumenta o risco. Isso não significa que todos desenvolverão a doença, nem que o exame deva depender de uma queixa visual.

A predisposição familiar participa do risco junto com fatores como o hábito de coçar os olhos. Perguntar apenas quem usa óculos pode deixar passar alterações iniciais.

Você pode organizar essa avaliação junto com os retornos do filho que já recebeu o diagnóstico, conforme a disponibilidade da família. Se outro filho estiver enxergando mal ou trocando frequentemente a receita, relate a situação para avaliarmos antes do calendário de rastreamento.

Um resultado normal representa a córnea naquele momento específico, mas não significa que ela não poderá desenvolver ceratocone mais para frente. Orientamos a necessidade de novos exames conforme os achados e o risco, sem supor que toda a família seguirá o mesmo acompanhamento.

Por que medir o grau dos óculos pode não detectar o início da doença?

A medida do grau não mostra, sozinha, todas as alterações iniciais do ceratocone. Um adolescente pode ter boa visão no teste de letras e ainda apresentar mudanças no formato da córnea.

O astigmatismo, uma alteração do foco que pode borrar ou distorcer a imagem, não é sinônimo de ceratocone. Quando ele muda rapidamente, porém, isso pode ser um indicativo para investigarmos a córnea com mais detalhes.

A topografia de córnea mede principalmente a curvatura da superfície da frente (se a córnea está regular, como num olho normal, ou irregular, como em uma córnea com ceratocone). A tomografia de córnea também examina a superfície de trás e a distribuição da espessura, ajudando a identificar alterações que a receita dos óculos sozinha não mostra.

Interpretamos esses resultados junto com a consulta. Uma marcação diferente no laudo não estabelece o diagnóstico isoladamente. Em situações de dúvida, repetir ou complementar os exames pode nos ajudar a definir o que é apenas uma suspeita de ceratocone ou o que é uma confirmação de fato do diagnóstico.

Como ajudar seu filho a controlar a coceira e participar do cuidado?

O ato de coçar os olhos é o principal fator de risco que pode fazer o ceratocone piorar, e consequentemente prejudicar cada vez mais a visão. Você pode ajudar seu filho a evitar esfregar os olhos e a seguir o tratamento da alergia ocular que o médico oftalmologista prescreveu durante a consulta. Se a coceira continuar, avaliamos o desconforto e orientamos o cuidado, que pode incluir colírios antialérgicos, lubrificantes ou até mesmo corticoides. Quando seu médico indicar, também é importante levar seu filho ao médico alergologista ou otorrinolaringologista, que pode ajudar no manejo da alergia ocular e doenças associadas, como rinite alérgica.

Converse sobre os momentos em que ele coça os olhos, sem transformar isso em uma cobrança constante. Você pode observar o gesto enquanto ele estuda ou assiste à televisão e perguntar se percebeu coceira. Leve essa informação à consulta.

Combine como ele vai lembrar dos colírios prescritos e conte se há dificuldade para usá-los. Dê espaço para que o adolescente explique o que sente, inclusive durante a consulta, em vez de responder tudo por ele.

Essas são sugestões para organizar o cuidado em família. Evitar coçar é uma orientação extremamente importante, mas não garante estabilidade do ceratocone. Se a coceira melhora, mantenha o acompanhamento conforme combinado com seu oftalmologista para avaliar a evolução e a saúde da córnea.

Como acompanhar o ceratocone?

Acompanhamos o ceratocone comparando a visão e os exames da córnea (como topografia e tomografia) ao longo do tempo. Os retornos serão programados geralmente a cada 6 meses, com ajustes conforme o risco e os resultados de seu filho.

A comparação dos exames ao longo do tempo considera mudanças no formato da córnea e na espessura, e irá nos fornecer informações importantes se o ceratocone está progredindo (logo, necessita de algum tratamento) ou se está estável. A progressão pode aparecer antes de o adolescente perceber piora visual, por isso não esperamos uma reclamação para repetir os exames previstos.

Você pode guardar os laudos anteriores e deixar a próxima data anotada em um calendário compartilhado com seu filho. Explique a ele o motivo do retorno, mesmo quando os óculos parecem funcionar.

Repetimos as medidas no mesmo aparelho para favorecer a comparação. Se ele usa lentes de contato, orientamos quanto tempo deverá ficar sem elas antes do exame, pois podem modificar temporariamente o formato da córnea. Combine esse preparo com a rotina escolar ao organizar a avaliação.

Quando considerar crosslinking em menores de idade?

O crosslinking, procedimento que busca estabilizar a córnea, pode ser considerado em menores com ceratocone confirmado. O momento da indicação depende da avaliação e da conduta que discutimos com a família.

Em menores de idade, indicamos crosslinking quando a comparação dos exames mostra progressão do ceratocone.

O objetivo não é retirar o grau de óculos, mas sim estabilizar a córnea e evitar que continue piorando. O procedimento está explicado na página sobre ceratocone e tratamentos. Como qualquer cirurgia, há alguns riscos que devem ser pesados, como infecção e piora visual, que serão explicados durante a consulta médica. Devemos ter em mente que em alguns casos o ceratocone pode continuar progredindo mesmo após o crosslinking (apesar de menos frequente), por isso é muito importante manter o acompanhamento e as consultas mesmo após o procedimento.

Na conversa sobre a indicação, seu filho também pode trazer dúvidas sobre a cirurgia e o retorno às atividades do dia a dia. A família participa da decisão e da organização das orientações após o tratamento.

Como seu filho pode começar a usar lentes de contato?

Seu filho pode começar a usar lentes quando a avaliação indicar que elas são uma opção para corrigir a visão. A adaptação inclui aprender a manusear e limpar as lentes, com participação da família conforme a necessidade.

Lentes rígidas podem corrigir a distorção causada pela córnea irregular, mas não interrompem a progressão; há detalhes na página sobre ceratocone e lentes. Nos retornos, avaliamos a visão e se a córnea se adaptou bem à lente de contato.

Reserve um momento para que ele pratique colocar e retirar a lente, seguindo as orientações recebidas na consulta. Ele precisa lavar e secar as mãos, usar a solução indicada e evitar água nas lentes. Retire-as para banho e natação, e antes de dormir.

Converse sobre como fará esses cuidados fora de casa. Se surgir dor ou olho vermelho durante o uso, a orientação é retirar a lente e buscar atendimento no mesmo dia, pois uma infecção pode afetar a córnea.

Se seu filho tem queixas visuais ou recebeu o diagnóstico, você pode agendar uma avaliação com exame de córnea para conversar sobre os achados e organizar o acompanhamento.

Perguntas frequentes

Meu filho vai ficar cego por causa do ceratocone?
Ter ceratocone não significa perder toda a visão. A doença pode causar uma dificuldade visual importante, mas há opções de correção e de tratamento da progressão. O que podemos esperar depende da condição da córnea e da evolução nos exames, por isso a importância de manter o acompanhamento com o médico oftalmologista.
Óculos novos resolvem o ceratocone?
Em formas iniciais, uma receita de óculos adequada pode dar uma visão suficiente para as atividades do adolescente. Os óculos corrigem o foco, mas não impedem que a córnea continue mudando (ou seja, não freiam a piora do ceratocone). Se a nitidez da visão ainda permanece insuficiente, avaliamos as alternativas descritas na [página sobre ceratocone](/cirurgias/cornea).
Meu filho pode dormir com as lentes de contato?
Para as lentes de correção visual, a orientação é sempre retirar antes de dormir, salvo uma indicação médica específica. O uso durante o sono aumenta o risco de infecção, inclusive quando seu filho não sente incômodo.
Com que idade devo levar meus outros filhos para o exame?
O rastreamento dos irmãos começa sempre o mais cedo possível, conforme a conduta que orientamos no consultório. Se houver uma queixa visual ou mudança frequente na receita, avaliamos essa situação sem esperar a idade prevista.
Ele poderá fazer cirurgia a laser para tirar os óculos no futuro?
No ceratocone, cirurgias a laser (LASIK, PRK, SMILE) para correção do grau são contraindicadas. A estabilidade após um tratamento não torna essas cirurgias automaticamente indicadas. Contudo, temos outras alternativas cirúrgicas para melhorar a visão.

Referências