Cirurgia de catarata
A catarata é a perda de transparência do cristalino, a lente natural do olho, e o tratamento para melhorar a visão é a substituição do cristalino. O cristalino opaco é removido através de equipamentos de alta tecnologia e substituído por uma lente intraocular personalizada, escolhida a partir da forma como cada pessoa usa a visão no dia a dia.
Técnicas
A escolha da técnica não é preferência: é consequência dos exames. Cada uma abaixo atende a um perfil de olho diferente.
- Lente monofocal
- Foco único, em geral ajustado para longe. Em geral utilizamos estratégias de monovisão, em que ajustamos um olho para a visão de longe e outro olho para a visão de perto.
- Lente multifocal
- Divide a luz entre distâncias diferentes e reduz a dependência de óculos para perto. São as lentes de mais alta tecnologia, e se o paciente possuir o olho certo para esta lente, é uma das melhores opções.
- Lente tórica
- Corrige o astigmatismo da córnea junto com a catarata.
Não existe a “melhor lente”. Na nossa decisão cirúrgica, escolhemos o que é melhor para cada tipo de paciente, conforme suas necessidades individuais e as características de cada olho. O melhor para o seu caso nem sempre será o mais caro, e não possuímos conflitos de interesse com nenhum fabricante.
Quando operar
A indicação vem do impacto na vida da pessoa, não só do aspecto do cristalino na consulta médica. Se você tiver uma catarata que impacta o seu dia a dia, isso é geralmente uma indicação cirúrgica, e nenhuma dieta, colírio ou suplemento pode prevenir ou tratar a catarata.

À esquerda, o cristalino transparente concentra a luz na retina. À direita, a catarata deixa o cristalino opaco e espalha a luz, o que explica o embaçamento e o ofuscamento. Ilustração: Mayo Clinic.
Os relatos que costumam antecipar a decisão são dificuldade para dirigir à noite, ofuscamento com faróis de carro e sol, cores que perderam o seu brilho natural, necessidade de mais luz para ler ou enxergar no celular, e troca frequente de grau sem ganho real de visão.
Existem situações em que indicamos a cirurgia por outro motivo, como a necessidade de enxergar o fundo do olho para acompanhar uma doença de retina, catarata que interfere no controle da pressão intraocular, ou um paciente a partir dos 55 anos de idade que deseja se livrar dos óculos (que aí chamamos de “faco refrativa”).
Como é a cirurgia
A segurança é nossa prioridade número um. Toda cirurgia é feita no microscópio cirúrgico, com movimentos muitas vezes invisíveis ao olho nu. O cristalino é fragmentado e aspirado por um equipamento de alta tecnologia, chamado de facoemulsificador. Tudo isso é realizado através de uma incisão microscópica, com cerca de 2 milímetros. Após a aspiração da catarata, uma lente dobrável é implantada dentro da própria cápsula que sustentava o cristalino.

A: cristalino transparente. B: cristalino opaco pela catarata. C: o facoemulsificador fragmenta e aspira a catarata. D: a lente intraocular fica dentro da cápsula que sustentava o cristalino.
O procedimento é ambulatorial, feito em geral com anestesia tópica e sedação leve, com total conforto para o paciente. Um olho de cada vez, com intervalo de pelo menos uma semana entre eles.
Optamos sempre pelo antibiótico intracameral no fim da cirurgia, a fim de reduzir qualquer risco de infecção, conforme estabelecido pelas sociedades médicas internacionais. No pós-operatório, prescrevemos também colírios anti-inflamatórios, corticoides e lubrificantes oculares para trazer maior conforto para o paciente.
A escolha da lente
O que muda entre os tipos é como a luz disponível é distribuída, e cada modelo de lente tem seus lados positivos e negativos.

Lentes monofocal, multifocal e tórica. Os anéis da multifocal dividem a luz entre os focos; as marcas da tórica servem para alinhar a lente no eixo do astigmatismo.
A lente monofocal concentra toda a luz em um foco. Entrega a visão mais limpa em contraste e a menor taxa de fenômenos luminosos (como halos e glare), mas geralmente não entrega uma visão tão boa para leitura. É a nossa primeira escolha em olhos com alguma alteração de retina, glaucoma ou com a córnea alterada (como ceratocone ou ceratotomia radial).
A lente multifocal divide a luz em vários focos diferentes (longe, médio e perto). Ela possibilita ao paciente uma menor dependência de óculos e melhor visão de perto sem correção, mas com mais halos em comparação com a lente monofocal. A decisão sobre se essa troca compensa é da pessoa que vai conviver com a lente, baseada nas necessidades individuais de cada paciente.

Uma lente multifocal (trifocal) posicionada dentro da cápsula que sustentava o cristalino.
A lente tórica corrige o astigmatismo da córnea e existe em versão monofocal e multifocal. Depende de astigmatismo regular, medido de forma consistente em exames diferentes, e de alinhamento preciso no eixo planejado.
Olho seco, alterações da mácula, glaucoma e cirurgia refrativa prévia pesam nessa escolha da lente para o paciente, e sempre recomendaremos a melhor opção para cada tipo de caso.
Lembrando que não há lente “premium” ou lentes de “luxo”, mas sim cirurgiões “premium”, que com base na experiência e em estudos irão sugerir o que é melhor para você.
As medidas que definem o cálculo
O grau da lente é calculado antes da cirurgia, a partir de exames detalhados que medem o comprimento do olho, a curvatura da córnea e a posição prevista para a lente. Chamamos isso de biometria.
A topografia de córnea entra no planejamento da cirurgia para definirmos diversas coisas, entre elas o grau do astigmatismo e a necessidade de lente tórica, e também a qualidade da superfície da córnea. O mapeamento de retina avalia o que está atrás do cristalino e identifica doenças como retinopatia diabética, que podem influenciar no resultado da cirurgia. A superfície ocular precisa estar saudável e tratada antes das medidas, porque um filme lacrimal instável leva a um cálculo errado — por isso, muitas vezes primeiro prescrevemos um tratamento para olho seco e superfície, e depois que estamos seguros de que tudo está saudável, repetimos os exames. Aqui, não podemos ter pressa, pois a prioridade é o melhor resultado final possível.
Quem já fez cirurgia refrativa a laser tem um cálculo mais desafiador, porque a córnea foi alterada. Existem fórmulas específicas para esses olhos, e os dados pré-operatórios da cirurgia antiga (como o grau de miopia que você tinha antes de operar) ajudam quando estão disponíveis, e você deve trazê-los para a consulta. Vale guardar esse registro.
Mesmo com biometria adequada, o resultado refracional é uma previsão. Um grau residual pequeno é possível e faz parte da conversa antes da cirurgia. Em alguns casos, é esperado que precisemos fazer um “retoque” no grau algumas semanas após a cirurgia, para deixar o grau o mais próximo possível do zero.
Recuperação
A visão costuma melhorar nos primeiros dias e continua ajustando por algumas semanas, com o olho ainda em recuperação.
O pós-operatório envolve o uso de colírios por algumas semanas, e cuidados simples de proteção do olho no primeiro mês. Esforço físico intenso, piscina e mar são liberados aos poucos. Trabalho e leitura costumam ser retomados cedo.
As consultas de retorno acontecem no primeiro dia após a cirurgia, na primeira semana e no primeiro mês, com ajustes conforme cada caso.
Riscos
Toda cirurgia na medicina possui riscos, sem exceção. Porém, a cirurgia de catarata é um dos procedimentos mais realizados em todo o mundo, e é segura e previsível.
Um dos riscos mais frequentes é a opacificação da cápsula posterior, que aparece meses ou anos depois em parte dos pacientes e é resolvida facilmente em consultório com laser YAG, num procedimento de poucos minutos. Porém, devemos nomear também o descolamento de retina (principalmente para pacientes altos míopes e mais jovens), a rotura de cápsula posterior e, muito raramente, endoftalmite. Atuamos sempre tendo a segurança do paciente como prioridade, para reduzir ao máximo qualquer risco.
Perguntas frequentes
- A catarata volta depois da cirurgia?
- Não. O cristalino removido não se reconstrói. O que pode acontecer é a cápsula que sustenta a lente perder transparência com o tempo, com sintomas parecidos aos da catarata. O tratamento é uma aplicação de laser YAG em consultório, sem qualquer tipo de corte, em um procedimento que dura poucos minutos.
- Catarata a laser é melhor?
- A facoemulsificação assistida por femtossegundo torna a abertura da cápsula mais circular e automatiza alguns passos da cirurgia. Porém, os resultados finais são iguais. Há algumas indicações precisas em que o uso do laser na catarata é indicado (como cataratas brancas intumescentes), mas não consideramos o laser um "upgrade" da técnica cirúrgica na maioria absoluta dos casos.
- Se eu usar algum colírio ou melhorar a alimentação, posso evitar a cirurgia?
- Não. Nenhuma medida dietética ou suplemento demonstrou prevenir ou tratar a catarata. Óculos novos ajudam durante um tempo, até deixarem de compensar a opacidade.
- Dá para operar os dois olhos no mesmo dia?
- O normal é operar um olho de cada vez, com intervalo entre eles. Isso permite avaliar o resultado refracional do primeiro olho e ajustar o cálculo do segundo, além de reduzir o risco de alguma complicação afetar os dois olhos. Nossa escolha é sempre pela segurança, e preferimos operar um olho de cada vez.
- Quanto tempo até eu poder dirigir?
- Depende da visão do olho operado, do olho contralateral e da recuperação individual. A liberação é dada na consulta de retorno, não por prazo fixo. Porém, depois de alguns dias, geralmente o paciente já está apto para dirigir.
- Vou ficar livre de óculos?
- Depende do tipo de lente que escolhemos e das características de cada paciente. Porém, sempre tentamos ao máximo deixar o paciente livre dos óculos, dentro da limitação de cada caso.
Referências
- American Academy of Ophthalmology. Cataract in the Adult Eye Preferred Practice Pattern (2021).
- de Silva SR, Evans JR, Kirthi V, Ziaei M, Leyland M. Multifocal versus monofocal intraocular lenses after cataract extraction. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2016.
- European Society of Cataract and Refractive Surgeons. Recommendations for Cataract Surgery.