Por que é essencial tratarmos o olho seco antes da cirurgia de catarata
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Recentemente publicamos um artigo científico internacional no Journal of Personalized Medicine sobre o manejo do olho seco na cirurgia de catarata.
Cada vez mais temos uma maior exigência com a precisão e com os resultados da cirurgia de catarata e faco-refrativa. O preparo para a cirurgia de catarata deve considerar a lágrima, a córnea e as pálpebras porque elas participam da qualidade da visão e podem interferir nas medidas usadas para escolher a lente intraocular, como a biometria. Quando há alterações importantes, tratar cuidadosamente a superfície ocular e reavaliá-la pode ajudar a tornar o planejamento mais confiável e a obtermos um melhor resultado no pós-operatório. Essa avaliação pode ser necessária mesmo que você não sinta ressecamento ou desconforto marcante.
A lágrima participa da qualidade da visão
A superfície ocular inclui a córnea, a parte transparente na frente do olho, e a conjuntiva, a membrana que recobre a parte branca do olho e o interior das pálpebras. A lágrima que cobre essa superfície e as pálpebras trabalham em conjunto para mantê-la protegida, lubrificada e homogênea.
Essa camada de lágrima é chamada de filme lacrimal. Além de evitar o ressecamento, ela forma uma superfície óptica regular sobre a córnea, por onde a luz passa ao entrar no olho. A cada piscada, a lágrima se espalha novamente.

As estruturas que formam e protegem a lágrima: a glândula lacrimal (lacrimal gland), a conjuntiva (conjunctiva) e as glândulas de Meibomius (meibomian glands). À direita, ampliado, o filme lacrimal (tear film) sobre a córnea (cornea), com a camada mucoaquosa (muco-aqueous layer) por dentro e a camada oleosa (lipid layer) por fora. Imagem ilustrativa.
O normal é produzirmos uma quantidade suficiente de lágrima, e também que a lágrima seja estável e demore para evaporar. Porém, quando esse filme lacrimal se torna instável e perde sua uniformidade entre piscadas, a visão pode oscilar. Você pode perceber que uma imagem fica mais nítida logo depois de piscar e volta a embaçar em seguida. Ardência, sensação de areia e incômodo com a luz também podem acompanhar alterações da superfície ocular.
O olho seco pode envolver produção insuficiente de lágrima, evaporação excessiva ou uma combinação desses fatores, frequentemente com inflamação da superfície da córnea. Por isso, avaliar apenas a quantidade de lágrima não explica todas as situações. Sua composição, estabilidade e a condição da superfície da córnea também precisam ser consideradas.
Medidas confiáveis ajudam a planejar a lente
Na cirurgia de catarata, o cristalino, a lente natural do olho que se tornou opaca, é substituído por uma lente intraocular. Para calcular o grau dessa lente de maneira precisa, o oftalmologista utiliza medidas do olho obtidas antes da cirurgia, através de diversos exames complementares.
Entre elas está a ceratometria, que mede a curvatura da córnea. Ela participa da biometria ocular, o conjunto de medidas usado no cálculo da lente. A regularidade da lágrima importa porque os aparelhos que avaliam a curvatura analisam a luz refletida pela superfície anterior do olho.

Exame de biometria óptica: o aparelho mede o olho, incluindo a curvatura da córnea, para calcular o grau da lente intraocular. Imagem ilustrativa.
Se a lágrima se distribui de maneira irregular ou a superfície da córnea está alterada (como em pacientes com olho seco), as leituras podem variar. Isso interfere tanto no cálculo do grau da lente quanto na avaliação do astigmatismo da córnea. E se essas medidas estiverem afetadas, o cálculo da lente intraocular perderá sua precisão e o paciente pode receber uma lente inadequada e não atingir seu máximo potencial de visão após a cirurgia.
Estudos reunidos em uma revisão narrativa da literatura sobre olho seco e cirurgia de catarata encontraram menor repetibilidade de medidas da córnea em pacientes com olho seco. Em outras palavras, medições repetidas nem sempre ficaram tão próximas umas das outras quanto nos grupos de comparação, e foram variando ao longo do tempo, mesmo que a córnea do paciente continuasse a mesma. Isso ajuda a explicar por que a condição da superfície ocular merece uma atenção especial antes de concluir o cálculo da lente.
A avaliação faz sentido mesmo sem desconforto
A intensidade das queixas nem sempre acompanha as alterações encontradas no exame. Você pode procurar atendimento pela catarata e ter sinais de olho seco sem perceber ressecamento importante.
Por esse motivo, a avaliação pré-operatória não depende apenas de perguntar se o olho está seco. A conversa também pode abordar visão que varia ao longo do dia, melhora ao piscar, uso de colírios, lentes de contato, doenças gerais e tratamentos anteriores.
Os exames permitem estudar a córnea e a conjuntiva, verificar como a lágrima se comporta e procurar sinais de inflamação ou de alteração das células da superfície. Corantes próprios para uso oftalmológico (como a fluoresceína, lisamina verde e rosa bengala) podem ajudar a identificar áreas de comprometimento que não são evidentes apenas pelos sintomas. Isso faz parte de uma avaliação oftalmológica completa no nosso consultório.
Esses achados precisam ser interpretados em conjunto. Alterações da superfície ocular não se resumem ao olho seco, e um resultado isolado não explica necessariamente o que você sente. Alguns exames complementares podem ser muito úteis e acrescentar informações importantes à avaliação.
As pálpebras também entram no exame
As pálpebras espalham a lágrima ao piscar e abrigam as glândulas de Meibomius. Essas glândulas produzem a parte oleosa do filme lacrimal, que ajuda a reduzir sua evaporação.

As glândulas de Meibomius ficam enfileiradas dentro das pálpebras superior e inferior. As setas indicam a borda das pálpebras, junto aos cílios, onde ficam as saídas das glândulas. Imagem ilustrativa.
Quando as glândulas funcionam mal ou suas saídas estão obstruídas, a composição da lágrima pode mudar e ela pode evaporar mais rapidamente. Assim, alguém pode ter olho seco mesmo sem uma redução importante da produção da parte aquosa da lágrima.
O exame das bordas das pálpebras procura alterações como inflamação, crostas e mudanças na secreção dessas glândulas. A blefarite, que é a inflamação das bordas palpebrais, também pode participar do problema. A forma de piscar merece atenção, pois influencia a distribuição da lágrima.
Identificar essas alterações ajuda a escolher um tratamento dirigido ao que está comprometido. Se as pálpebras e as glândulas contribuem para a instabilidade da lágrima, o cuidado pode precisar ir além da lubrificação.
O tratamento depende das alterações encontradas
O tratamento antes da cirurgia tem como objetivos melhorar o conforto e favorecer uma superfície mais regular para a avaliação da córnea. As opções dependem dos mecanismos envolvidos, e por vezes há mais de um mecanismo de olho seco envolvido.
Os colírios lubrificantes, também chamados de lágrimas artificiais, ajudam a complementar a lubrificação da superfície ocular. As formulações têm características diferentes: algumas favorecem a retenção de água, enquanto outras procuram complementar a parte oleosa da lágrima. A escolha do melhor lubrificante para seu caso considera as alterações encontradas durante a consulta médica, bem como outras informações.
Quando há comprometimento das pálpebras ou das glândulas de Meibomius, o tratamento pode incluir cuidados de higiene palpebral e medidas para melhorar a qualidade e a saída da secreção. Entre elas, estão a higiene cuidadosa dos cílios com produtos específicos e as massagens com compressas mornas, a fim de melhorar a saúde das glândulas de Meibomius. Em determinadas situações, podemos considerar alguns procedimentos específicos, como a realização de luz pulsada.
Se a superfície ocular estiver inflamada, podem ser indicados colírios específicos para controlá-la, com prescrição e acompanhamento, como tacrolimo e ciclosporina. Alterações mais intensas ou persistentes podem exigir uma combinação de cuidados e uma avaliação mais detalhada.
Também pode ser necessário revisar alguns fatores que contribuem para o ressecamento, como condições ambientais (como o uso excessivo de ar condicionado e ventiladores), uso de lentes de contato e até mesmo alguns medicamentos. Essa revisão faz parte da avaliação médica. Não existe um conjunto de tratamentos que deva ser aplicado automaticamente a todas as pessoas que vão operar catarata.
A reavaliação pode incluir novas medidas
Depois de um tratamento indicado e após o quadro de olho seco melhorar, a reavaliação verifica como a superfície ocular respondeu ao tratamento. O alívio dos sintomas é uma informação útil, mas o exame também precisa mostrar se persistem alterações relevantes na córnea ou na lágrima.
Se a condição da superfície mudou, pode ser necessário repetir a ceratometria e outras medidas usadas no planejamento. A finalidade é verificar se as leituras se tornaram mais consistentes e homogêneas, e se os exames não estão mais variando tanto.
Quando há comprometimento significativo na região central da córnea, é mais adequado primeiro tratar cuidadosamente a superfície ocular e obter as medidas definitivas depois. Essa decisão depende do exame e da evolução, sem um intervalo fixo que sirva para todos.
Uma melhora passageira logo após pingar um lubrificante também não demonstra, por si só, que a superfície ocular está estável e saudável. A própria aplicação de colírios pode modificar temporariamente algumas leituras. Por isso, a equipe organiza as condições de medição e interpreta os resultados junto com o exame clínico.
O planejamento da cirurgia de catarata pode precisar de mais tempo
Se a superfície ocular permanece irregular ou as medidas variam, o preparo para a cirurgia de catarata pode exigir mais consultas antes de concluir a escolha da lente. Afinal, a maior prioridade é sempre ter o melhor resultado final possível, e a pressa é nossa inimiga. O tempo depende da alteração encontrada, de sua intensidade e da resposta ao tratamento.
O que se busca é uma condição adequada para planejar a cirurgia com dados mais confiáveis. Em algumas situações, o controle de uma doença crônica da superfície ocular continua mesmo depois dessa etapa. Melhorar a superfície não equivale a prometer que todos os sintomas desaparecerão ou que o resultado visual será igual para todas as pessoas.
A escolha da lente também considera outras características do olho e suas necessidades visuais. O diagnóstico de olho seco, sozinho, não define essa escolha. Mesmo com preparo cuidadoso, o desconforto pode surgir ou até mesmo se intensificar depois da cirurgia, o que torna o acompanhamento pós-operatório parte do cuidado com o paciente.
Na avaliação pré-operatória, você pode conversar sobre seus sintomas de olho seco e sobre a necessidade de tratamento ou de novas medidas antes de concluir o planejamento pré-operatório de sua cirurgia.